Mulheres, Roqueiras e Mães
- Gabe Salmazo

- 14 de mai.
- 10 min de leitura
Os desafios de ser mãe e ter uma banda e a influência na vida das crianças
O episódio 10 do programa Girls to the Front foi especial Dia das Mães, e para esta celebração reuni somente bandas com mulheres que são mães, e, para dar mais espaço as suas vozes, pedi para que elas respondessem duas perguntas via áudio para incluir antes da música das suas bandas durante o programa. As perguntas foram as seguintes:
Qual o maior desafio em conciliar banda e maternidade?
Qual o impacto/influência você acha que tem nos filhos a mãe ter uma banda?
A seguir você poderá ler os depoimentos de 8 mulheres que participaram do programa. No programa além dos relato em audio, inclui diversos trechos de entrevistas de outras musicistas internacionais falando de seus desafios, então se gostou deste post, não deixe de ouvir o programa inteiro!

Tiemi - vocalista e guitarrista da banda Patada
Na sequência tocou:
Patada - Adolescentes
Pra mim o maior desafio de conciliar ser mãe e a vida com banda, é a rotina de banda. Pra mim é muito difícil os ensaios a noite, que eu tenho levar o meu filho, ou eu tenho que arrumar um lugar pra ele ficar. No começo quando era legal porque era tudo novo, mas quando vira um rotina, vira um saco! Quem acompanha banda ensaiando, sabe que até pra gente que toca é um saco e ele fica entediado. Pra mim é bem difícil de conciliar. No final de semana quando a gente toca é mais fácil, porque dai eu consigo deixar na casa do meu pai, no meu irmão... ou seja tenho uma rede de apoio que consegue me ajudar. Mas dia de semana tem aquela correria: pegar na escola, sair correndo, chegar no ensaio atrasada, pegar uma comida rápida e fazer lição de casa, dormir e acordar no dia seguinte no gás...
"Eu acho que esse impacto de ter a musica no cotidiano também é muito importante, então ao mesmo que é difícil também é muito bom."
Pensando no maior impacto que tem na vida do meu filho ter banda, na verdade eu não queria que fosse um impacto: eu queria que ele crescesse em um ambiente onde musica fosse uma coisa naturalizada. Então eu acho por mais que seja massante, essa coisa de ir no ensaio e tocar, ele sabe todas as letras das musicas, ele canta junto... Eu vejo que isso acabou se incorporando no dia a dia de casa: ao mesmo que é uma coisa difícil porque é mais uma coisa que a coloca dentro de todas as tarefas que a gente tem que fazer, é o que permite ter uma proximidade maior com a própria musica. Eu eu vejo ele comentando sobre as musicas da Patada, outras vezes, ele adora a Shakira por exemplo, então a gente está ouvindo uma Shakira no carro e ele começa a perceber uma batida da bateria que é diferente, a percussão, o jeito que ela canta, quando a voz está mais alta ou mais baixa. Eu acho que esse impacto de ter a musica no cotidiano também é muito importante, então ao mesmo que é difícil também é muito bom.

Rebeca Li - baterista e vocalista do duo Morcegula
Na sequência tocou:
Morcegula - Morcegula
Hoje estou terminando a turnê que o Morcegula fez na Europa e é a primeira vez em 15 anos que eu fico mais tempo longe das minhas filhas. Eu tenho uma de 15 anos e uma de 10 anos. A de 15 já está maiorzinha e já me dá um suporte inclusive, mas a pequena ainda sente, pede pra eu voltar... E eu acho que essa é a minha maior dificuldade: conseguir não deixar a culpa materna me assombrar. Entender que eu já fiz tudo que precisava até aqui (e vou continuar fazendo por elas), mas ser uma mãe que realiza seus próprios sonhos, é parte do meu sonho de ser uma boa mãe. Assim eu não coloco o peso da minha existência nelas como eu sei que muitas outras mães de outras gerações foram ensinam a fazer. E eu mostro pra elas que elas são extremamente capazes de realizar os próprios sonhos em qualquer fase da vida.
"Ser uma mãe que realiza seus próprios sonhos, é parte do meu sonho de ser uma boa mãe."
Fazendo um gancho com o impacto na vida delas, eu tenho duas meninas que são musicistas, e tocam desde que nasceram. Eu coloquei na musicalização desde cedo e hoje elas tem aulas constantes e seus projetos musicais. Eu gosto de ver como um impacto é positivo mesmo, no sentido que elas enxergam na mãe, uma mulher ativa, que realiza seus próprios sonhos, que tem sua própria vida, que fala o que elas devem ser e fazer, no sentido de conquistarem o que desejarem mas que também faz. A gente vê muita mãe que se anula, que se deixa sem segundo plano. Eu acho que a vida é uma constante queda de avião que a gente precisa por a máscara primeiro na gente depois no outro, então é muito importante a gente mostre a nossa força quanto mulher, antes de mãe, e mostra pra elas que a gente faz isso justamente pra elas se inspirarem e seguirem este modelo.
(Na sequência tocou P!NK falando sobre as novas necessidades da sua filha durante a turnê e Liz Phair sobre a diferença de tratamento de um pai roqueiro e uma mãe roqueira)

Kassandra - vocalista da banda Pisscharge
(Na sequência tocou:
Pisscharge - Dampfwalzer)
O Pisscharge é uma banda que foi formada na Alemanha, em Hannover há oito anos atrás, ela é uma banda com formação 75% latina: eu e meu filho, que é o baterista somos do Brasil, o guitarrista é Chileno, e a gente tem nosso gringo que é o baixista Nico. Pra mim é uma honra participar desse programa, que tenho acompanhado pelo Instagram e acho super legal e agora estou bem felizona, participando dele.
Conciliar banda e maternidade pra mim é mágico porque meu filho é o baterista da nossa banda, o Pisscharge, e na verdade foi ele que me convidou pra fazer parte da banda, em 2017. Ele tinha 15 anos na época. Não lembro de outro projeto mais mágico na minha vida além do Pisscharge. Eu sou atriz também, já fiz muitas coisas, sou de Curitiba, mas o Pisscharge é realmente o meu projeto do coração por conta da maternidade, porque levar as duas coisas é mágico.
"Eu acho incrível demais porque na verdade é mais mágico pra mim do que pra ele."
O impacto que tem na vida do meu filho me vendo ser front de uma banda, é difícil responder porque ele é o baterista da banda, porque literalmente a visão que ele tem do público e tem eu na frente. A gente começou a banda, ele tinha 15 anos, então essa dinâmica pra pedir permissão pra mãe, não precisou sempre tinha a mãe junto. E eu acho incrível demais porque na verdade é mais mágico pra mim do que pra ele. Ele “ah legal, minha mãe”, mas pra mim é demais pensar que a gente tem essa parceria, é uma broderagem, a gente faz tudo junto, viaja, fomos para o Brasil, e é maravilhoso ter esse projeto junto com ele. A coisa mais linda que eu tenho na vida é o Pisscharge.

Dani Rodrigues - vocalista e guitarrista da banda Renegades of Punk
Na sequência tocou:
The Renegades of Punk - 16
Pra mim o maior desafio em conciliar banda e maternidade provavelmente é a culpa de ter que estar ausente, de ter que viajar, de ter que estar alguns momentos longe da criança, principalmente na primeira infância, que existe uma demanda muito grande de atenção e cuidado. E mesmo tendo uma rede de apoio legal, ter que dividir o tempo entre a criança e banda além dos outros afazeres da vida pesa um pouquinho, pra mim é um dos maiores desafios.
"...a ideia de que as mães também são seres humanos, também se divertem, também ficam tristes,..."
Ao mesmo tempo, um impacto na vida das crianças que eu acho extremamente positivo é eles crescerem vendo e tendo uma mãe que toca em uma banda de punk rock. E é justamente a formação de uma ideia de que as mães também são seres humanos, também se divertem, também ficam tristes, que também tem suas necessidades de expressão, e de conexão com outras pessoas. E também da ligação artística que isso traz. Eu cresci numa família em que meu pai era musico, não profissional, musico de fim de semana mas isso ajudou muito a me conectar com a música. Desde pequena já brincava com os instrumentos que tinha em casa. Sabendo que isso foi uma influência importante do meu pai na minha vida, isso acaba passando também na criação e na personalidade da minha filha, que acompanha os pais tendo banda, tocando, construindo uma trajetória, lançando disco e tudo mais.

Roberta Cibin - baixista da banda As Más Notícias
Na sequência tocou:
As Más Notícias - Vida Torta
Pra mim a coisa mais dificil de ser mãe e ter uma banda, é conseguir conciliar ensaio e prática, e não só pela maternidade. Talvez a maternidade coloque uma coisa a mais ali, mas é o capitalismo também, de ter que trabalhar 8 horas por dia, chegar em casa tarde, ter que lidar com janta, tarefa de casa, cuidados da casa e ainda conseguir pegar meu baixo, ensaiar um pouquinho, marcar ensaio... Pra mim essa é a coisa mais difícil: me manter constante no estudo e no ensaio da banda.
"E ainda mais saber que eu estou podendo proporcionar pra ela algo que eu não tive"
Eu fui uma pessoa que começou a tocar tarde na vida. Fui realizar o sonho de aprender a tocar um instrumento musical, eu já tinha quase quarenta anos. Então ver que minha filha poder olhar pra mim e com 10 anos ela já ter uma banda, tocar seus instrumentos, e está realmente interessada nisso, conhecer as notas musicais, acordes, já é uma grande realização. E ainda mais saber que eu estou podendo proporcionar pra ela algo que eu não tive, dentro da minha casa. Que musica é diversão, brincadeira e a gente pode fazer o que a gente quiser.

Camila Lacerda - baterista da banda Time Bomb Girls)
Na sequência tocou:
Time Bomb Girls - Quando eu crescer (assista o videoclipe aqui)
O maior desafio pra mim, é justamente conciliar a banda e maternidade. A gente fica sem horário, fica confusa na rotina. Quando nasceu minha primeira filha, ficamos um tempão sem tocar, mas depois eu consegui voltar. Agora estou com meu segundo com 3 meses, e estamos parados novamente por causa disso. Mas o mais difícil mesmo é a questão da rede de apoio. Ainda bem que eu tenho meu marido, minha mãe, mas mesmo com eles, é difícil ensaiar por exemplo. Mas quando você não tem rede de apoio, deve ser mais difícil ainda. Outro ponto que pega pra mim, é a amamentação, porque tanto um quanto o outro estão na amamentação exclusiva, então tem que carregar ele pra tudo que é lado.
"Mas eu acho que é muito importante pra eles crescerem tanto vendo uma mulher tocar, o empoderamento feminino, como também estar no meio da arte. "
Na minha opinião, o impacto que tem na vida deles, de ver a mãe tocando numa banda, pra mim é extremamente positivo. Minha filha, que hoje tem 3 anos, me viu tocar pela primeira vez grávida do meu segundo filho, porque eu fazia questão que ela me visse tocando. (Passando a licença maternidade, voltaremos com tudo, fica aí um spoiler pois teremos muitas novidades.) Mas eu acho que é muito importante pra eles crescerem tanto vendo uma mulher tocar, o empoderamento feminino, como também estar no meio da arte. Eu já vejo reflexos na minha mais velha que gosta música, brinca com instrumento musical. Eu acho que a arte em geral é muito importante pra vida deles. Eu pretendo continuar tocando e que eles cresçam me vendo tocar o máximo possível.

Bianca Jhordão - vocalista e guitarrista da banda Leela
Na sequência tocou:
Leela - Te procuro
O maior desfio pra conciliar banda e maternidade é a rotina de horários mais rígida que é necessária pra se criar uma criança e a falta de rotina do artista da música independente, organizar ensaios, shows, gravações, eventos sociais sem ajuda dos nossos familiares que vivem fora de São Paulo. Até porque o pai do Téo também toca comigo no Leela. A maternidade exige presença emocional, atenção, e disponibilidade o tempo inteiro. Tivemos uma rede de apoio de amigos que ajudou muito mas muitas vezes tivemos que reduzir a intensidade da nossa dedicação ao trabalho artístico. Acho que o grande aprendizado foi perceber que não existe perfeição nessa conciliação. Existe adaptação, parceira e rede de apoio. E muitas vezes, aceitar que as vezes não dá pra fazer tudo que a gente queria e equilibrando esses momentos.
"Acho que o grande aprendizado foi perceber que não existe perfeição nessa conciliação."
O Téo cresceu vendo uma mulher ocupar o palco, cantar, tocar guitarra, produzir música, então acho que isso ajuda a naturalizar a ideia de que mulheres podem estar onde quiserem, e ao mesmo tempo ele cresceu entendendo que música não é só glamour, existe dedicação, ensaio, correria, bastidor, noites sem dormir e muito amor e resiliência pelo que se faz. Depois da maternidade, desenvolvemos um projeto chamado Família Beatles, onde a gente contava a história do filme animado Yellow Submarine dos Beatles, apresentando as canções da trilha sonora. Téo fez parte desse espetáculo e pode ter a experiência de como é trabalhar com música, em cima de um palco. Guardamos com muito carinho as lembranças desse show com a família reunida o palco em torno desses espetáculos. Atualmente o Téo tem 14 anos e quando possível, viaja para os shows com a gente, fazendo fotos e videos do show do Leela.

Lisi Rauth - baixista e vocalista da banda Bravonas
Na sequência tocou:
Bravonas feat. Crazy B. - Garota Super Legal - assista aqui!
O maior desafio pra mim de ser mãe e conciliar maternidade com banda é ter tempo pra sair do automático, da rotina do dia a dia pra criar, pra compor, e pra praticar o instrumento.
Na minha opinião, o impacto que tem eles verem que a mãe deles tem uma banda, é principalmente descontruir noções de gênero. Eles verem que as mulheres e as mães, elas podem, devem, merecem e tem o direito de ter o seu lazer. E que elas tem capacidade e habilidade artistica pra fazer o que faz elas felizes. Isso é muito importante: eles verem a mãe sendo feliz, sendo ela mesma, realizando sua arte.
"Isso é muito importante: eles verem a mãe sendo feliz, sendo ela mesma, realizando sua arte."
Na sequência rolou:
Brandi Carlile falando da importância de mencionar sua família composta pela sua esposa e duas filhas - principalmente no estado do Texas; + música
Tegan falando sobre a rede de apoio de Sara na próxima turnê da dupla; + música
Laura Jane Grace falando sobre os momentos de conexão com sua filha que resultou na música que tocou na sequencia; + música
Sheryl Crow que fala no resultado de ter os filhos vendo todo o processo de ser musicista. + música
Ouça o episódio! Ouça mulheres! Divulgue mulheres! Apoie mulheres!






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