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Mulheres na Rádio: qual o espaço que conquistamos até agora?

  • Foto do escritor: Gabe Salmazo
    Gabe Salmazo
  • 19 de mar.
  • 10 min de leitura

Em março de 2026, como parte da programação do Dia Internacional da Mulher do Museu de Imagem e Som do Paraná, eu participei de um bate-papo sobre Mulheres no Underground, e assumi a tarefa de falar sobre o espaço conquistado pelas mulheres nas rádios. Como criadora e locutora de um programa de rádio chamado Girls to the Front, que é dedicado a divulgar e homenagear bandas com mulheres de todos os tempos e de todos os cantos do mundo, resolvi fazer uma pesquisa nas três fontes de consumo de música da atualidade, em busca de dados mais precisos sobre a atuação da mulher, seja como parte da engrenagem de quem fornece as músicas, seja no conteúdo, para entender onde estão as falhas deste sistema para termos mais igualdade de participação e, principalmente, representatividade.


Focos da pesquisa


Para a minha pesquisa, eu me concentrei basicamente em analisar a presença das mulheres nas fontes de música atuais usando esses 3 fatores:

  • Panorama temporal: Cenário atual - não levei em consideração dados históricos;

  • Conteúdo: Música - me concentrei somente nas músicas da programação e não em entrevistas, jornais e outros assuntos;

  • Gênero musical: Rock - foquei somente no gênero onde tenho atuado como musicista e ouvinte.


E para ter o material de análise, os dados reunidos foram através de:

  • Conversas informais com pessoas dentro das rádios independentes e FM;

  • Artigos e textos sobre mulheres nas rádios;

  • Coleta manual de dados.


Para compreender a magnitude do problema que enfrentamos, é essencial entender o funcionamento das três fontes de consumo de música atualmente. Isso nos permitirá identificar os gêneros envolvidos em cada etapa até o consumo de música e, assim, determinar quais etapas necessitam mudanças.


Funcionamento das 3 principais fontes de música atualmente: rádios FM, independentes e plataformas de streaming.


Hoje em dia, as pessoas consomem música através das clássicas rádios FM transmitidas pelas ondas sonoras mas também bastante pela internet. E é muito importante saber que 80% dos brasileiros ouvem rádio e os ouvintes passam em média 4 horas escutando música por dia. A seguir, você encontra mais dados sobre quem e como as pessoas ouvem música:


80% dos brasileiros ouvem música através da rádio tradicional (52% são mulheres e 48% são homens);

60% ouvem também ouvem música através das plataformas de streamings (a maioria das plataformas tem levemente mais mulheres ouvintes que homens: Spotify por exemplo 56% mulheres e 44% homens);

18% ouvem rádios independentes (49% são mulheres e 51% são homens);


Das músicas consumidas online:

48% vem do Youtube (não do Youtube Music, pois esta que entra nos streamings)

34% vem dos streamings

18% das rádios online


E para entender o funcionamento de cada uma dessas fontes, eu analisei 4 itens:

  • o acervo;

  • a programação;

  • os comunicadores;

  • o conteúdo.


Grande parte dessas informações foram obtidas por meio de conversas diretas com pessoas ligadas às fontes de música e também de diversas publicações feitas por sites e organizações confiáveis. No entanto, para o quesito conteúdo, foi necessário realizar uma pesquisa manual para obter dados precisos sobre a programação. Para isso, ouvi e anotei manualmente o gênero que quem executava as músicas tocadas durante 8 horas, divididas aleatoriamente durante o dia e dias diferentes. Analisei o conteúdo de cada rádio, dedicando duas horas para ouvir a programação de quatro delas: duas independentes e duas FM, todas de Rock.


Fonte 1: As grandes rádios FM


As grandes rádios transmitem seu conteúdo principalmente através das ondas sonoras porém elas se beneficiaram também da internet pois atualmente é possível ouvir a programação ao vivo através dos sites das rádios e também por aplicativos que transmitem a programação em tempo real diretamente nos celulares. Os setores das rádios FM funcionam quase que 100% de forma humana, e esse é um diferencial entre ela e as outras duas fontes de rádio. Seguindo os itens de pesquisa, as rádios funcionam desta forma:


ACERVO: Para fornecer músicas aos ouvintes, as rádios precisam de um acervo de músicas e a obtenção das faixas é feita de três formas:

  1. Compras: o setor de compra adquire as faixas para uso por tempo determinado;

  2. Concessão: as distribuidoras cedem materiais de seus artistas com a finalidade de divulgação de material. Um lançamento de uma música nova por exemplo;

  3. Pagamento: as distribuidoras pagam para que uma faixa toque na programação.


As músicas do acervo tem término de veiculação, e após a data estipulada, a rádio não poderá veicular a faixa sem um novo contrato ou acordo. A maior parte do retorno financeiro das rádios vem dos anúncios entre blocos.


Conforme um dos meus informantes, antigamente uma rádio tinha em média 2000 faixas para compor a sua programação, portanto, levando em consideração que são veiculadas em média 15 músicas por hora, você poderia ouvir uma rádio por cinco dias e meio sem a repetição de músicas. Hoje em dia o acervo das rádios diminuiu drasticamente e tem em média 500 músicas para compor as grades. Esta é uma das razões pelas quais temos tanta repetição das músicas na programação. Atualmente você ouve menos de um dia e meio de músicas sem repetição. Com certeza um dos motivos para essa redução no acervo, foi o impacto que as grandes rádios tiveram com o surgimento das novas fontes de música criadas a partir da internet.


PROGRAMADOR: O setor de programação é responsável por criar a grade de programação de uma rádio e nela incluir as músicas que aliado ao setor de conteúdo, organizam o que será veiculado a cada hora do dia, mesclando o conteúdo musical com o informativo. Este setor tem autonomia para escolher o que será tocado a cada hora dentro do seu acervo durante toda a programação diária. Não faz parte do acervo os programas específicos que tem um acordo a parte com a rádio, e que geralmente não faz uso do acervo oficial. Neste caso a rádio possui um consenso do artista para veicular o material, caso seja um programa de música. De acordo com a pesquisa da UBC (União Brasileira de Compositores), apenas 12% dos programadores são mulheres.


COMUNICADOR: É a pessoa que transmite aos ouvintes as informações e notícias previamente preparadas pelo setor de conteúdo e também anuncia as músicas selecionadas pelos programadores. Tem pouca autonomia de escolha. Pode escolher a ordem das músicas em alguns casos, e também escolher 15 músicas entre as 18 selecionadas para aquela hora. Tem pouca liberdade para expressar opiniões e sua fala precisa estar alinhada com o perfil da rádio. No levantamento entre homens e mulheres, levando em consideração as duas grandes rádios de Rock de Curitiba, temos:


  • Rádio A: 6 comunicadores, 2 são mulheres e 4 homens;

  • Rádio B: 6 comunicadores, 50% são mulheres.


Informação extra: A mesma Rádio A em São Paulo tem um total de 29 comunicadores e somente 9 deles são mulheres.


CONTEÚDO: Analisando o conteúdo das grandes rádios, cheguei a números extremamente desanimadores. Ouvindo 2 horas aleatórias de cada uma delas, os números foram os seguintes:

  • Rádio A: de 28 músicas, apenas 2 eram com mulheres artistas.

  • Rádio B: de 29 músicas, apenas 9 eram com mulheres artistas.


Em resumo, 81% de músicas tocadas eram de bandas compostas por homens e apenas 19% com mulheres.


Informação Extra: Segundo o site inglês WIPO (World Intenational Property Organization) a porcentagem de músicas com artistas mulheres na programação das rádios em 2022 era de:

  • 18% nas rádios inglesas;

  • 15% nas rádios irlandesas;


Fonte 2: Rádios independentes


Caso você não esteja familiarizado com o termo “rádio independente”, elas dependem da internet, pois são rádios transmitidas via sites que são equipados com players (tocadores de música), onde se pode ouvir músicas e programas criados que podem ter temas variados: podem ser dedicados a gêneros musicais específicos, entrevistas, compilados de bandas a partir de temas ou datas comemorativas, além de outros assuntos relacionados à música ou não. Existem aplicativos “comunitários” onde você encontra as rádios independentes e pode ouvir a rádio diretamente do celular. Os sites possuem conteúdos variados que podem ser anúncios pagos, textos, datas de eventos e outras divulgações. Elas funcionam a maior parte do tempo de forma mecânica, ou seja, um sistema aleatório escolhe a música e lança no player. A programação destinada a programas específicos, tem dias da semana e horários fixos. Esta última etapa é feita de forma humana.


ACERVO: Cada rádio independente tem sua particularidade com relação ao acervo.

  • Algumas veiculam as músicas de acordo com discos lançados por um selos (tipo de empresa que divulga bandas ou discos especiais como tributos) próprios ou parceiros;

  • Outras funcionam com o auxílio dos próprios artistas independentes que cedem suas músicas para a programação em troca de divulgação;

  • Outras ainda, colocam músicas conseguidas por meios alternativos, como por exemplo baixar músicas para incluir na sua programação.

No geral, as rádios independentes costumam ter mais que 50 horas de música, o que é o equivalente a 1000 músicas disponíveis no acervo.


PROGRAMADOR: Como a maior parte da programação diária é feita por meio do sistema onde todo o acervo está incluído e é tocada de forma aleatória, nas rádios independentes os únicos programadores são os dos programas específicos. E neste caso, cada episódio é criado de forma independente, com a pessoa que cria definindo o conteúdo, locuções ou ainda a ausência delas. A pessoa que cria o programa define o conteúdo, a periodicidade e tem total autonomia na produção do episódio, inclusive em questão de expressão de opiniões, mas que precisa estar minimamente alinhadas com o perfil da rádio.


COMUNICADORES: Na programação aleatória não existem comunicadores, alguns incluem vinhetas rápidas de poucos segundos, mas no geral é música após música sem intervalos ou locuções. Somente nos programas específicos você poderá ouvir comunicadores que anunciam músicas, falam sobre assuntos específicos e desenvolvem os episódios de uma forma bastante independente. Levando em consideração somente o número de comunicadores dos programas dedicados das rádios independentes, veja o gráfico ao lado sobre os dados que foram levantados a partir de conversas diretamente com os responsáveis pelas rádios independentes. Em resumo: 88% dos comunicadores são homens e 12% são mulheres.


CONTEÚDO: Ouvindo o conteúdo das duas maiores rádios onde o programa GIRLS TO THE FRONT é veiculado, e analisando somente a programação aleatória, (não os programas específicos), eu reuni os seguintes dados:


Rádio A: 28 músicas, 21 bandas de homens e 7 bandas com mulheres;

Rádio B: 33 músicas, 22 bandas de homens e 11 músicas com mulheres;


Ou seja, 24% da programação das rádios independentes tem mulheres no seu conteúdo musical, e o único programa das sete rádios onde é veiculado meu programa, somente o Girls to the Front é especialmente dedicado a bandas com mulheres.


Fonte 3: Plataformas De Streamings

Ela depende 100% da internet assim como as rádios independentes, porém uma diferença é que elas também são fortalecidas pelas grandes rádios. Por vezes o ouvinte escuta uma música na rádio e segue para o streaming para ouvir novamente quando desejar. Esta fonte é alimentada através da movimentação do usuário dentro da plataforma, portanto pode se dizer que ela precisa de interação humana para que o algoritmo entenda qual caminho deve seguir. As plataformas de Streamings ainda são relativamente recentes para se ter pesquisas mais eficazes, porém alguns sites estrangeiros fornecem alguns dados importantes. Com relação aos ouvintes, a porcentagem é bastante equilibrada:












ACERVO: o acervo das plataformas é muito amplo e é o espaço em comum entre grandes artistas que lotam estádios e artistas independentes que tem um alcance mais limitado do seu material. Cada artista ou distribuidora/selo pode fazer o upload de suas músicas e artes relacionadas seguindo alguns parâmetros de qualidade. Entre 4 a 7 dias as músicas estarão disponíveis para o mundo a partir da data de lançamento estabelecida. Dentro das 6 maiores plataformas de streamings, em uma pesquisa de 2022, elas contam aproximadamente com 4.700 artistas por plataforma e 60 bilhões de streams (músicas ouvidas) no total.


PROGRAMADOR: Cada um é seu próprio programador que tem total autonomia para pesquisar, salvar, compartilhar e criar sua “programação” em forma de playlists e ainda toda e qualquer movimentação na plataforma, auxilia o algoritmo, que é o "programador robô" a sugerir conteúdos similares de acordo com o que foi ouvido ou pesquisado.


COMUNICADOR: Não existem comunicadores já que as informações dos artistas e faixas estão contidas nas próprias descrições das músicas, e o ouvinte tem a opção de se informar mais sobre o artista explorando o perfil ou simplesmente ouvir o que desejar sem se aprofundar.


CONTEÚDO: Existem ainda relativamente poucas pesquisas sobre o assunto mas diversas publicações mencionam que o algoritmo tende a indicar músicas de artistas homens a mulheres, mas que já existem plataformas tentando reverter esta tendência com programações conscientes dentro das plataformas. Ainda assim, consegui encontrar dados relevantes ao conteúdo em sites estrangeiros. Alguns destes dados são os seguintes:


  • Das 10 mil músicas mais ouvidas nas plataformas, 1300 são de mulheres, ou seja somente 13%.

  • 60% dos ouvintes de artistas mulheres, são mulheres;

  • 44% dos ouvintes do Spotify são mulheres;

  • 17% do conteúdo total em diversos gêneros musicais tem uma mulher artista na voz principal, segundo o site francês Centre National de la Musique e que analisou as principais plataformas. (Veja o pdf do estudo de 2022)



E afinal de contas, qual o espaço que conquistamos nas rádios?

Diante de todos os dados coletados manualmente e pelas pesquisas feitas por importantes organizações de música do Brasil e do mundo, está bastante claro que estamos longe de ocupar um espaço de igualdade nas rádios. Não ocupamos um espaço equilibrado em nenhum setor ligado a música, e podemos ainda ir mais longe e generalizar para as artes como um todo. Falando especificamente de rádios, precisamos de mais mulheres em todas as etapas e engrenagens das rádios. Mais importante que isso, precisamos de mulheres e homens conscientes dessa realidade para podermos agir contra. Precisamos de pessoas conscientes no setor de compras do acervo e no setor de programação que vai equilibrar os gêneros de artistas tocados. Precisamos de comunicadores conscientes que entendam a importância de não excluir da lista de músicas a serem tocadas, aquelas 3 de mulheres artistas das 18 músicas do plano da programação. Precisamos equilibrar o acervo das rádios independentes, nem que seja duplicando as bandas e artistas mulheres para que elas também sejam ouvidas na programação. Precisamos incentivar mais mulheres a criarem seus programas e fazer espaços para suas vozes e pensamentos serem ouvidos. Precisamos engajar e compartilhar conteúdos feitos por mulheres, com a consciência de que estamos lutando contra um sistema que insiste em dizer que na música não existe espaço para as mulheres. E se você chegou até aqui, meu recado é pra você também: seja consciente! Apoie mulheres. Respeite mulheres. Divulgue o trabalho de mulheres. O mundo só tem a ganhar com isso.



 
 
 

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Criação e Locução de Gabe Salmazo

© 2026 por Gabe Salmazo 

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